|Série Biomas| Desvendando o Cerrado (V.4, N.1, P.11, 2021)

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Esta série sobre Biomas é o resultado dos trabalhos da disciplina Ciência Ambiental, ministrada pelo professor Prof. Dr. Ricardo H. Taniwaki, no âmbito do Programa de pós-graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Federal do ABC.

Divulgadoras da Ciência:

Loran Peres da Silva e Helton Alves da Costa

O Cerrado ocupa praticamente 25% do território brasileiro, abrangendo os estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal (Figura 1). É conhecido popularmente como a caixa d’água do Brasil por ser berço de três principais bacias hidrográficas no país (Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata), o que favorece a uma abundância de recursos hídricos e a uma biodiversidade riquíssima.

 

Figura 1: Delimitação do Cerrado brasileiro. Fonte: IBGE, 2004. #PraCegoVer: Mapa delimitando a área do cerrado brasileiro.

 

O Cerrado é dividido em três principais formações: Formação Florestal, Formação Savânica e Formação Campestre (Figura 2). Sendo o lar de 46 milhões de habitantes que vivem nessa área e de uma fauna (ex: lobo guará, onça-pintada, tamanduá bandeira) e flora (ex: pequizeiro, buritizal e mangabeira) bastante diversa, com uma grande riqueza de espécies nativas e endêmicas.

Figura 2: Fitofisionomia do Cerrado. Fonte: Ribeiro e Walter, 2001. #PraCegoVer: Imagem ilustrativa com os tipos de formações que são encontrados no cerrado, entre elas formações florestais, formações savânicas e formações campestres.

 

Além dos aspectos ambientais, o Cerrado tem uma fundamental relevância social, pois é berço de etnias indígenas, ribeirinhas, gerazeiras, babaçueiras, vazanteiras e comunidades quilombolas que utilizam dos seus recursos naturais para sua manutenção, sendo um patrimônio histórico e natural do Brasil. Ao mesmo tempo, é um dos principais territórios agrícolas e de pecuária no país.

O Cerrado vem enfrentando a diminuição do seu espaço natural para dar lugar a pecuária de corte e pecuária leiteira, além de plantações em larga escala, principalmente para exportação, com uma fronteira agrícola a ser conquistada (Figura 3). O que vem impactando negativamente no seu ecossistema, com perca de espécies nativas, alteração da dinâmica climática local e ampliação da desigualdade social.

 Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no ano de 2013, 55% do Cerrado estava coberto por áreas naturais e 45% por usos antropogênicos. Dentro esses usos antrópicos, o que mais se destaca é a pastagem, ocupando 30% do território, sendo destinado majoritariamente para criação de gado de corte e gado leiteiro em grandes áreas, com o monopólio de grandes fazendeiros, com alta concentração de renda e índice GINI elevado. Além de uma grande quantidade de terra destinada para plantações de soja e milho, que também são utilizados para a alimentação animal e exportação.

Conforme dados do Ministério do Meio Ambiente e da FUNCATE até o ano de 2015 foram desmatados cerca de 100 milhões de hectares do Cerrado, o que representa cerca de 49,8% do Cerrado brasileiro ao contrário da agricultura, que vem tendo seu território aumentado. A expansão da produção no Cerrado vem despertando a atenção do mundo com destaque para os sites como The Economist e New York Times que noticiaram em 2013 que esse crescimento é responsável pela ascendência da agricultura brasileira no cenário global, com safra recordes de grãos e produção de carne para exportação.

Figura 3: Distribuição das frequências das classes se uso do solo e cobertura da terra no Cerrado por estado. Fonte: MMA, 2016. #PraCegoVer: Gráfico com a divisão por estado do uso e ocupação do cerrado brasileiro.

 

Os estados que apresentam maior percentual de vegetação nativa são Piauí, Maranhão, Tocantins, Bahia, Mato Grosso e Rondônia. Todavia, o estado de Rondônia possui menos de 1% da área referente ao bioma Cerrado. A região do conglomerado de expansão agropecuária conhecido por MATOPIBA, compostos pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia merecem atenção por ter a maior parte de vegetação ainda nativa do Cerrado, com respectivamente 79%, 74%, 84% e 68% de suas áreas ainda conservadas. Apesar disso, segundo dados da TerraBasilis, em 2020 essa região foi uma das maiores áreas que sofreram desmatamento nos últimos 10 anos. Vale salientar que a maioria dos estados possuem mais que 40% da sua área com cobertura vegetal, exceto os estados de São Paulo (19%), Paraná (38%) e Mato Grosso do Sul (32%), porém esses estados possuem histórico de ocupação mais antigo, sendo já esperado esses menores valores percentuais com base na vegetação nativa.

Cerca de 20% das espécies nativas e endêmicas já não ocorram em áreas protegidas e pelo menos 137 espécies de animais do Cerrado estão ameaçadas de extinção. É a segunda maior região biogeográfica brasileira atrás da Mata Atlântica que mais sofre alterações em decorrência da ocupação humana segundo dados do Ministério do Meio Ambiente.

Diante desse cenário de ocupação e uso do solo no Cerrado, se faz necessário principalmente soluções inovadoras para reduzir o desmatamento, promover a manutenção da biodiversidade na região, promoção da agricultura sustentável, além de incorporar a problemática da reforma agrária através de políticas pública assertivas e com o correto monitoramento e fiscalização.

Além de analisar as áreas sensíveis à expansão agrícola, é necessário fomentar estratégias de proteção das áreas de vegetação ainda existentes, promover o Cadastro Ambiental Rural (CAR), implementar o manejo integrado do fogo em unidades de conservação e terras indígenas, criar sistemas de compensação de reserva legal em condomínios, delimitar áreas para conservação e recuperação, e fiscalização constante por parte dos órgãos competentes. Investimentos em análises detalhadas em âmbito regional e local devem ser realizadas para uma melhor acurácia dos dados e nas medidas a serem implementadas, pois o desenvolvimento sem planejamento ambiental leva a padrões de produtividade insustentáveis, com alta degradação ambiental, esgotamento de recursos naturais, além de inúmeros impactos negativos, assegurando um meio ecologicamente equilibrado para as presentes e futuras gerações.

 

Referências

[1] ISPN. Instituto Sociedade, População e Natureza. Cerrado. Disponível em  <https://ispn.org.br/biomas/Cerrado/fauna-e-flora-do-Cerrado/>. Acesso em 06 out. 2020.

[2] Embrapa Cerrados. Projeto Conservação e Manejo da Biodiversidade do Bioma Cerrado (CMBBC). Relatório Final. Disponível em: < http://cmbbc.cpac.embrapa.br/Relatoriofinal.pdf> Acesso em 07 out. 2020

[3] Costa, K.; Romeiro, M.; Carneiro. A. F.; Oliveira, M. Cerrado: Estratégias de Conservação em Áreas Privadas. INPUT: Iniciativa para uso da terra. Disponível em: <https://www.inputbrasil.org/publicacoes/Cerrado-caminhos-para-a-ocupacao-territorial-uso-do-solo-e-producao-sustentavel-estrategias-de-conservacao-em-areas-privadas/> Acesso em: 08 out. 2020.

[4] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente (MMA). Plano de Ação para Prevenção e Controle dos Desmatamento e das Queimadas no Cerrado – PPC Cerrado 2º Fase (2014-2015). Disponível em: <http://combateaodesmatamento.mma.gov.br/images/conteudo/PPCerrado_2aFase.pdf> Acesso em: 08 out. 2020.

[5] Embrapa Cerrados. Contanto a Ciência na Web – CCWeb. Disponível em: <https://www.embrapa.br/contando-ciencia/bioma-Cerrado> Acesso em: 09 out. 2020.

[6] IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estástica, 2004. Mapa de biomas do Brasil. Escala 1:5.000.000. Disponível em: <http://mapas.ibge.gov.br/biomas2/viewer.htm.> Acesso em: 07 out. 2020.

[7] RIBEIRO, J.F.; WALTER, B.M.T. As Matas de Galeria no contexto do bioma Cerrado. In: RIBEIRO, J.F.; FONSECA, C.E.L. da; SOUSA-SILVA, J.C. (ed.). Cerrado: caracterização e recuperação de matas de galeria. Planaltina: Embrapa Cerrados; Brasília: MMA, 2001. p.29-50

[8] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente (MMA). Plano de Ação para a Prevenção e o Controle do Desmatamento – PPC Cerrado 3ª Fase (2016-2020). Versão Preliminar. Disponível em:< https://www.mma.gov.br/images/arquivo/80120/PPCDAm%20e%20PPCerrado%20-%20Encarte%20Principal%20-%20GPTI%20_%20p%20site.pdf> Acesso em 09 out. 2020.

[9] TerraBrasilis. Incrementos do Desmatamento no Cerrado. 2020 Disponível em: < http://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/cerrado/increments> Acesso em: 09 out. 2020.

 

Imagem destacada: Pixabay

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1 Resultado

  1. Visitem o Museu do Cerrado que é um museu virtual com o objetivo de divulgar os conhecimentos científicos, os saberes e os fazeres populares acerca da sociobiodiversidade do Sistema Biogeográfico do Cerrado. Convido-lhes a visitá-lo no seguinte site e peço que divulgue na sua lista de contatos:

    http://www.museucerrado.com.br

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