Uma Breve Jornada sobre Tolkien, Braille e o Cosmos que Nos Cerca [Parte 1] (V.8, N.3, P.1, 2025)
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¹ PcD com cegueira e Professor Dr. vinculado ao Bacharelado em Ciência e Tecnologia, à Engenharia de Gestão e à Pós-graduação em Engenharia e Gestão da Inovação da UFABC.
2 Coordenador da Graduação em Engenharia de Gestão, Professor vinculado ao Bacharelado em Ciência e Tecnologia, à Engenharia de Gestão e à Pós-graduação em Engenharia e Gestão da Inovação da UFABC.
Braille: Comunicação Tátil #paratodosverem
Ao contrário do que muitos acreditam, o Braille não é uma língua como o português, inglês ou mesmo o Quenya, a antiga língua dos Altos Elfos de Valinor. Na verdade, o Braille é um sistema de escrita tátil, uma criação brilhante que transcende idiomas. Ele permite que pessoas cegas acessem textos em uma variedade de línguas e, por que não, até as inventadas, como as de Tolkien.
Quando falamos sobre o Braille, não estamos falando de um código misterioso ou de uma linguagem oculta. Trata-se de uma ferramenta de inclusão, projetada para transformar a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Um simples conjunto de pontos em relevo organizados de forma metódica que, quando lidos com a ponta dos dedos, criam um novo universo de possibilidades. É um sistema que rompe as barreiras entre a cegueira e o conhecimento, fornecendo acesso à educação, à literatura, e até mesmo à música.
A história de Louis Braille é uma verdadeira jornada de desafios. Imagine uma pequena cidade francesa, Coupvray, no início do século XIX. Louis, filho de um fabricante de arreios, passava seus dias brincando na oficina do pai. Aos três anos, um acidente com uma sovela — uma ferramenta pontiaguda usada para perfurar couro — mudou para sempre a vida do jovem. A lesão no olho, seguida de uma infecção, o deixou completamente cego aos cinco anos.
Mas essa história não termina aqui. Seus pais, determinados a proporcionar-lhe uma educação, o matricularam na escola local, onde ele se destacou, mesmo com os poucos recursos disponíveis para alunos cegos. Sua determinação e sede por conhecimento o levaram, aos dez anos, ao Instituto Nacional para Jovens Cegos, em Paris, onde a verdadeira aventura de Louis começaria.
No Instituo, a leitura para cegos era um processo lento e rudimentar, usando letras em relevo que eram demoradas de decifrar. Foi então que, em 1821, Louis Braille foi apresentado ao sistema de “escrita noturna” criado por Charles Barbier, um capitão do exército francês. Originalmente, Barbier tinha inventado essa escrita para que soldados pudessem ler ordens no escuro sem acender uma luz. Embora o sistema de Barbier fosse inovador, ele era complicado e pouco prático para a leitura fluida.
Louis, com sua mente inquieta e ávida por soluções, viu uma oportunidade de aperfeiçoar o sistema. Aos 15 anos, ele criou sua própria versão da escrita tátil, um sistema mais simples e eficiente, composto por pontos em relevo que podiam ser facilmente lidos com a ponta dos dedos. O sistema Braille, como ficou conhecido, foi publicado pela primeira vez em 1829, incorporando letras, números e até notas musicais.
Infelizmente, a sociedade da época ainda era lenta para adotar mudanças, e Louis Braille enfrentou resistência da comunidade médica conservadora. Ele não viveu para ver o sucesso total de sua invenção, falecendo de tuberculose aos 43 anos. Mas, como toda grande ideia, o sistema Braille eventualmente foi reconhecido e se espalhou pelo mundo no final do século XIX e início do século XX.
Alfabeto Braille atualizado. (Fonte: Museu do Braille internet)
Hoje, o Braille é um sistema universal, usado em várias línguas, disciplinas e campos do conhecimento. Matemática, ciência, música — o Braille possibilitou o acesso de pessoas cegas a tudo isso, promovendo não apenas inclusão, mas também independência. A escrita em relevo criou uma ponte entre a cegueira e o vasto mundo das ideias. Com o avanço da tecnologia, especialmente com o desenvolvimento de leitores de tela e software de voz, o uso do Braille tem diminuído. Para muitos, a tecnologia é mais prática, uma vez que permite acesso a informações em um formato auditivo. No entanto, o Braille ainda tem seu lugar de importância. Ele não é apenas uma alternativa tecnológica; é uma ferramenta educacional fundamental, especialmente para crianças cegas, ajudando-as a desenvolver habilidades de leitura e escrita que são essenciais para a alfabetização.
O impacto de Louis Braille foi reconhecido postumamente. Em 1952, seus restos mortais foram transferidos para o Panteão de Paris, um local reservado aos maiores líderes intelectuais da França, ao lado de figuras como Voltaire e Victor Hugo. No entanto, em respeito às suas origens humildes, suas mãos — aquelas que criaram o sistema que tocaria a vida de milhões — foram mantidas em Coupvray, sua terra natal, em uma urna simples no cemitério da igreja local. Um gesto simbólico que reflete tanto a grandeza de sua invenção quanto a simplicidade de seu espírito.
Braille e a Comunicação no Espaço Profundo
Até no espaço, Louis Braille foi homenageado. A NASA nomeou um asteroide em sua honra, o “9969 Braille”.
Um asteroide chamado Braille (fonte: BBC/Folha-UOL, disponível na internet)
[Descrição da imagem: asteróide com os dizeres “9969 Braille” escrito em portugês e em sinais de braile]
O “9969 Braille” não é apenas uma rocha espacial cruzando as órbitas de Marte e do Sol a cada 3,58 anos. Ele carrega consigo um símbolo: a homenagem a um inventor cujo sistema de escrita trouxe à humanidade uma forma revolucionária de comunicação.
Curioso é que Braille, uma ferramenta de leitura tátil aqui na Terra, encontrou um reflexo simbólico nas placas e discos de ouro enviados pela NASA a bordo das sondas Pioneer e Voyager nos anos 1970. Assim como o Braille usa o relevo para comunicar algo tangível a quem não enxerga, essas sondas carregam mensagens que podem ser lidas por toques ou através da decodificação visual e até sonora — a depender, é claro, de quem as encontrar. Elas são a tentativa da humanidade de se comunicar além das fronteiras terrestres, com a esperança de que seres de outros mundos possam interpretar e compreender o que gravamos.
Para Saber mais:
Museu Louis Braille: https://museelouisbraille.com/en
O que tem nos discos de ouro das sondas Voyager? https://www.youtube.com/watch?v=PcWD-x2ea-w
The Golden Record. NASA JPL. https://science.nasa.gov/mission/voyager/voyager-golden-record-overview/
Compilação de entrevistas com Tolkien feitas pela BBC nos anos 1960: https://www.youtube.com/watch?v=NTz2-im7s9k