A Solista Improvável: Quando a estratégia se revela no clique exato da dúvida (V.8, N.8, P.8,2025)
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No início, havia apenas uma xícara de café e um quadro branco. E, diante dele, um executivo franzia a testa como um maestro diante de uma partitura escrita por outro. Na ponta do marcador, desenhava-se um mundo de metas, orçamentos, cronogramas e indicadores coloridos — todos confortáveis, domesticados, perfeitamente alinhados ao centro do que se esperava dele. Era o ritual do planejamento. Limpo. Seguro. Redondo.
Sobre a mesa, intocada, repousava uma antiga máquina de escrever — lembrança de outro tempo, instrumento de outra lógica. Ainda silenciosa.
Mas como toda boa sinfonia que começa serena, a melodia se complica. Do outro lado das imensas janelas de vidro, um concorrente menos elegante e mais ousado não rabiscava gráficos, mas mapeava desejos. Não se perguntava o que poderia fazer com os recursos disponíveis, mas por que deveria existir num mercado em movimento. Não construía planos — arquitetava uma estratégia. E isso fazia toda a diferença.
- O Conforto Brando dos Planos Domados
Planejar é como arrumar as gavetas antes de uma tempestade: é terapêutico, mas não impede a inundação. Ele nos dá a ilusão de controle, porque lida com aquilo que tocamos — orçamentos, espaços físicos, contratações. O plano é uma lista elegante de intenções que cabem numa planilha. Repetimos ações que já conhecemos, gerenciamos custos como se estivéssemos dobrando guardanapos em jantares corporativos, e nos convencemos de que tudo está sob controle porque… bem, foi escrito.
E tudo que é escrito numa fonte corporativa e projetado em PowerPoint tende a parecer mais real do que é.
Mas a verdade é outra: planejar, no fundo, é cantar afinado enquanto o navio afunda. Um controle interno que pouco dialoga com a brutalidade lá fora — um mundo onde os clientes não assinam nossos relatórios, nem os concorrentes pedem licença para vencer. Enquanto um plano diz o que faremos, a estratégia ousa perguntar por que estamos aqui — e esse simples deslocamento de pergunta muda tudo.
- A Estratégia como uma Teoria Poética do Vencer
Diferente do planejamento, que age como um contador meticuloso, a estratégia se comporta como um romancista obcecado com o desfecho. Ela não se satisfaz com atividades em série, mas exige coerência entre causa, meio e fim. Para ser chamada de estratégia, uma ação precisa estar presa a um propósito. E esse propósito, por sua vez, deve ser viável, desejável e, acima de tudo, competitivo.
Imagine um jogo. O planejamento é uma lista das jogadas que podemos fazer. A estratégia é a narrativa que explica por que essas jogadas nos levam à vitória. Não se trata de controle. Trata-se de escuta. De leitura do tabuleiro, dos adversários e — o mais desconcertante — dos clientes, que, ao contrário do que o plano sugere, não nos devem nada. Eles decidem. E, muitas vezes, nos ignoram com a impassividade de uma plateia fria.
Planejar é o que você faz quando tem medo de arriscar. Estratégia é o que você faz quando decide, apesar do medo, agir.
III. O Desconforto como Sintoma de Liderança
Planejar é confortável. Estratégia não é.
Essa é a parte que os gestores não aprendem nos MBAs. A verdadeira estratégia não oferece garantias. Ela se alimenta de hipóteses, suposições, ousadia. E por isso mesmo, dói. Há uma angústia inevitável em dizer: “não sei se vai funcionar, mas acredito que sim — e aqui está o porquê”.
Aceitar essa angústia é a antessala da liderança. A recusa em aceitar o desconforto é a antessala da irrelevância.
A dificuldade maior da estratégia é que ela exige honestidade intelectual. Ela nos obriga a admitir que não controlamos os clientes, que o sucesso não pode ser provado antecipadamente, que a perfeição é uma miragem gerencial. Em troca, ela nos dá algo raro: a chance de fazer algo memorável.
- Quando o Planejamento É Uma Cama Arrumada no Porão da Derrota
A maioria das empresas prefere o plano. E é fácil entender por quê. É mais reconfortante dizer “vou abrir uma nova filial” do que “vou ser melhor que meus concorrentes em algo que meus clientes valorizem”. O primeiro soa possível; o segundo, perigoso. Mas a verdade é esta: enquanto você arruma a casa, alguém lá fora está aprendendo a vencê-lo.
E talvez aí esteja o paradoxo mais desconcertante do mundo corporativo: o planejamento é tão controlável que se torna impotente. Ele não oferece defesa contra a irrelevância. Ele apenas assegura que você será coerente… na sua própria mediocridade.
- A Simplicidade Como Subversão
Uma boa estratégia cabe em uma página. Ela responde a perguntas simples:
— Onde jogamos?
— Como vencemos?
— Que capacidades precisamos desenvolver?
— Que sistemas de gestão vão nos manter atentos ao caminho?
— E o que precisa ser verdadeiro para que isso funcione?
Se você não consegue responder isso sem recorrer a mil slides, então talvez esteja planejando, não estrategiando.
- O Risco Não Está em Errar. Está em Não Jogar para Vencer.
Empresas que jogam apenas para participar compartilham um “bolo menor” enquanto uma só, estrategicamente, come o bolo inteiro. Isso não é crueldade do mercado — é física da competição. Enquanto você controla seus custos, o cliente decide. E ele escolhe quem o serve melhor — não quem planejou mais.
VII. Um Quadro em Branco no Meio da Tempestade
E então voltamos à sala do início.
O executivo contempla seu quadro branco. A xícara de café está fria. Os gráficos estão prontos.
Mas falta algo: a escolha de ousar.
No canto da mesa, a velha máquina de escrever ainda repousa, silenciosa. Suas teclas já narraram projetos audaciosos, planos insensatos e vitórias improváveis — mas sempre dependeram do toque de alguém que ousasse começar. Agora, ali parada, quase peça de museu, observa — paciente e melancólica — a inércia que se disfarça de prudência.
E se a estratégia é a arte inquieta de não ter certeza, então planejar sem estratégia é um bom modo de perder com elegância.
Porque a diferença entre planejar e estrategiar não está nos verbos. Está na coragem de desenhar o futuro sem poder prová-lo, mas ainda assim, com a firmeza de quem sabe que o desconforto é o único solo fértil da verdadeira inovação.
No fim das contas, estratégia é isso:
— Uma aposta elegante.
— Um salto com bússola.
— Um ato de fé racional.
— Um improviso com coerência.
E o mais curioso? É que, no silêncio da dúvida, ela canta. Como uma vela solitária navegando no breu do oceano. Como uma bússola que não aponta o norte, mas convida ao sul do impossível. Como aquela sinfonia inventiva de Leroy Anderson — The Typewriter — onde uma máquina de escrever assume o solo em meio à orquestra, inesperada e precisa, regendo o caos com seus cliques e campainhas. E ainda assim, entrega música.
Mas mesmo naquela peça, a primeira nota só existiu quando alguém teve a ousadia de pressionar a tecla.
Para Saber mais:
- Livro “Estratégia Boa, Estratégia Ruim” de Richard Rumelt publicado pela Elsevier em 2011.
- Sinfônica de Brandenburg (gravação ao vivo de 2012) peça “The Typewriter”: https://www.youtube.com/watch?v=nW8dGwa2zRw&list=RDnW8dGwa2zRw&start_radio=1
- Video “O que é Estratégia?” [em inglês] da Harvard Business Review. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=o7Ik1OB4TaE&t=120s
- Podcast sobre Estratégia (caso no mercado de luxo): https://www.youtube.com/watch?v=o_Knr3hUVhA